02/05/2025

Resolução CFC 1.721/2024: Como transformar obrigações de PLD-FTP em oportunidades de negócios para contadores

02/05/2025

A Resolução CFC nº 1.721/2024 marca um novo capítulo na atuação dos profissionais da contabilidade no Brasil. Muito além de uma obrigação regulatória, ela representa uma oportunidade concreta de geração de valor, ampliação de portfólio e mitigação de riscos em um cenário cada vez mais exigente. 

Foi nesse contexto que o webinar PLD-FTP na Gestão Contábil: Conformidade e Novos Negócios, promovido pelo IPLD em parceria com a Integrity, reuniu nomes de peso do setor para debater o tema.

A nova resolução e seus impactos

A Resolução 1.721/2024 do Conselho Federal de Contabilidade regulamentou os deveres que contadores e escritórios de contabilidade precisam observar em relação à prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo (PLD-FTP). Entre as principais obrigações estão a análise reputacional e de risco dos clientes, monitoramento de operações, comunicações de operações suspeitas e manutenção de registros.

Edgard Rocha, Diretor Especialista do IPLD, destacou que a norma traz tanto obrigações quanto oportunidades: “A gente buscou trazer aqui também, junto com esses deveres, algumas oportunidades para que os profissionais possam, enquanto também se preparam para cumprir a norma, obter meios de alavancar seus próprios negócios.”

Flávia Augusto, vice-presidente de fiscalização do CRC-SP, reforçou que a norma vem para fortalecer o papel estratégico do contador: “É um avanço necessário e um marco regulatório importante para a valorização da nossa atividade profissional. A norma traz segurança, para o contador e para seus clientes”, afirmou.

Ela destacou que muitos profissionais já realizavam práticas similares, ainda que de forma não estruturada. “A diferença agora é que temos diretrizes claras, e isso ajuda na padronização e na capacitação técnica dos escritórios”, completou.

Desmistificando a norma

Um dos pontos mais enfatizados durante o evento foi a desmistificação da complexidade da norma. Luiz Nóbrega, Presidente do Instituto Paulista de Contabilidade, alertou sobre um erro comum: “Criou-se uma certa cultura inverídica que o cumprimento da norma de PLD pelos profissionais da contabilidade se restringe a uma única comunicação negativa em janeiro do ano subsequente. Isso é um erro grotesco.”

Ele ainda destacou que a principal quebra de paradigma está na percepção da norma como um diferencial competitivo: “Estamos falando de algo que pode respaldar o profissional e, ao mesmo tempo, abrir portas para novas oportunidades. Não é só conformidade, é estratégia”, afirmou.

Joaquim Cunha Neto, Diretor Executivo da Integrity e ex-COAF, reforçou que a abordagem baseada em risco é um dos maiores avanços da norma: “Essa nova resolução do CFC trata isso com maestria. Ela realmente é muito boa e deve ser copiada, inclusive, por outros segmentos obrigados.”

Conhecer o cliente: o pilar fundamental

Os especialistas concordaram que conhecer o cliente é fundamental para o cumprimento da norma. Joaquim Cunha destacou: “Conhecer o seu cliente é fundamental, porque a partir dali que você vai ter toda uma visão sobre as suas movimentações financeiras, sobre os negócios que ele realiza.”

Joaquim também destacou o papel estratégico dos contadores em ajudar seus próprios clientes a entender e mitigar riscos, inclusive oferecendo serviços adicionais como a checagem de fornecedores e parceiros. “Se você vai pagar por uma base de dados, por que não usar isso como um serviço oferecido ao cliente?”, provocou.

Comunicações ao COAF: quebrando estigmas

Um tema que gerou muitas dúvidas foi sobre as comunicações de operações suspeitas ao COAF. Luiz Nóbrega esclareceu: “Não estou delatando meu cliente. Estou cumprindo obrigações que estão contratadas, estão dentro de cláusulas, estão numa lei, e estou buscando a minha proteção profissional.”

Joaquim Cunha complementou: “Não se preocupem com o fato de estar comunicando. Quem está comunicando é uma entidade obrigada, não é a pessoa física.”

A orientação unânime foi clara: é preciso registrar, justificar e despersonalizar as comunicações. O contador não comunica por vontade própria, mas como representante de uma entidade obrigada por lei.

Capacitação e tecnologia como aliados

Flávia Augusto destacou a importância da capacitação: “É fundamental entender que PLD-FTP não é um tema só para grandes firmas. Pequenos escritórios também estão expostos e precisam se proteger”. Ela revelou que o CRC-SP já está promovendo capacitações, webinars e workshops com foco prático, com o objetivo de auxiliar os profissionais a implementar a norma com eficiência e segurança.

Quanto à tecnologia, Luiz Nóbrega explicou como ela facilita o cumprimento da norma: “Hoje, com pouquíssimos comandos, consigo ter esse monitoramento do meu cliente. A ferramenta faz uma varredura e, à medida que existe um nível de risco, essa ferramenta me reporta e eu posso fazer uma comunicação ou não.”

Transformando obrigações em oportunidades de negócios

Além da segurança jurídica, a nova resolução também abre espaço para novos modelos de negócios. Serviços como implementação de políticas de PLD-FTP, treinamento de colaboradores, monitoramento de terceiros e due diligence prévia para fusões e aquisições são algumas das áreas com potencial de monetização.

“O contador pode, e deve, transformar essa obrigação legal em um novo fluxo de receita. Isso é profissionalismo, isso é mercado”, concluiu Edgard Rocha.

Luiz Nóbrega exemplificou: “Recentemente, bateu na porta do escritório um cliente que estava fazendo uma aquisição. Eu fui fazer uma due diligence e o cliente-alvo tinha alguns pormenores que o meu cliente não sabia. Não abortou a missão, mas oportunizou uma renegociação do valor. Eu gerei valor para o meu cliente.”

Joaquim Cunha reforçou: “O cliente do profissional de contabilidade faz negócios, tem fornecedores, tem parceiros, tem empregados. Esse serviço pode ser prestado pelo escritório de contabilidade.”

A mensagem final foi de otimismo, como resumiu Luiz Nóbrega: “Nós estamos falando aqui não só de cumprir uma norma, mas de uma grande oportunidade também de, além de cumprir a norma, trazer proteção e elevar a receita com isso.”

O evento demonstrou que, com a abordagem correta e o uso de tecnologia, os profissionais contábeis podem transformar as exigências regulatórias em diferenciais competitivos e novas fontes de receita.