O primeiro painel do 8º Congresso Internacional do IPLD, Fraude e Lavagem de Dinheiro: Dois crimes, uma mesma trilha – Prevenção Integrada em PLD-FTP, realizado em 26 de Maio de 2026, reuniu Especialistas e Lideranças do mercado para debater a relação entre fraude e lavagem de dinheiro. Com mediação de Fabrício Lima (Diretor de PLD/CFT do Nubank), a discussão contou com a participação de Adriano Volpini (Sócio do Itaú Unibanco S.A.), Gustavo Martins dos Santos (Chefe do Departamento de Supervisão de Conduta do Banco Central) e Ricardo Saadi (Presidente do COAF), que abordaram temas como integração entre as áreas de fraude e PLD, uso de dados no KYC, Pix, MED 2.0 (Mecanismo Especial de Devolução do Pix) e a importância da cooperação entre os setores público e privado. O novo cenário criminal: fraude e lavagem caminham juntas Fabrício Lima – Diretor de PLD/CFT do Nubank A separação entre as áreas de fraude, PLD e segurança cibernética foi apontada como uma vulnerabilidade relevante no atual cenário financeiro. Com o avanço da digitalização, as organizações passaram a enfrentar crimes cada vez mais sofisticados, rápidos e interconectados, exigindo respostas igualmente integradas. Logo no início do Painel, o mediador Fabrício Lima destacou que o principal desafio está na velocidade com que o crime organizado absorve novas tecnologias e adapta suas operações. “O crime organizado, os fraudadores, adotam as novas tecnologias imediatamente, e isso coloca um desafio de que tanto as instituições financeiras quanto os reguladores adotem medidas e reajam com a mesma velocidade.”, ressaltou. Ao longo do debate, ficou evidente que tratar fraude e lavagem de dinheiro como fenômenos independentes já não reflete a realidade. Em grande parte dos casos, ambos compõem uma mesma cadeia criminosa, em que a fraude atua como mecanismo de obtenção do recurso ilícito, enquanto a lavagem permite sua ocultação e circulação. Prevenção integrada: a experiência das instituições financeiras Adriano Volpini – Sócio Itaú Unibanco S.A. A experiência apresentada por Adriano Volpini mostrou como grandes instituições vêm reorganizando suas estruturas para responder a esse novo cenário. No caso do Itaú, a estratégia atual reúne áreas que anteriormente operavam de forma separada em uma estrutura integrada de Prevenção a Crimes Financeiros. Assim, a integração permite que sinais inicialmente classificados como fraude sejam rapidamente correlacionados com indicadores de lavagem de dinheiro, aumentando a efetividade da prevenção. O Especialista reforçou essa visão ao destacar que o combate ao crime financeiro exige, necessariamente, a interrupção do fluxo de recursos. “Combater crime tem que passar obrigatoriamente pelo sufocamento financeiro. Não tem outra alternativa. O bandido só vai onde está o dinheiro. Se a gente tira o acesso ao dinheiro, tira também o poder.”, pontuou. Essa lógica altera profundamente a forma de prevenção. Se antes as áreas podiam operar de maneira mais segmentada, hoje a capacidade de compartilhar inteligência e agir de forma coordenada tornou-se essencial para reduzir vulnerabilidades e ampliar a capacidade de resposta. Dados e KYC: inteligência analítica como diferencial Os painelistas destacaram também que o modelo tradicional de KYC (Know Your Customer), baseado principalmente em dados cadastrais, já não é suficiente para acompanhar a sofisticação das tipologias criminosas. Atualmente, a Avaliação de Risco precisa considerar variáveis comportamentais e contextuais que ajudam a identificar padrões atípicos em tempo real. Entre os dados que enriquecem a análise estão: Histórico de fraudes no mercado Devices compartilhados entre múltiplas contas Geolocalização Comportamento transacional Vínculos com contas previamente sinalizadas Volpini destacou a importância de observar o comportamento digital como fonte estratégica de inteligência para detectar redes suspeitas e movimentações coordenadas. “Se eu começo a ter mais de uma conta operada pelo mesmo device, será que essas contas não são de laranja? A hora que você começa a transpor o que desenvolveu para um fim para outras possibilidades, amplia muito a sua tomada de decisão.”, reforçou. Pix e MED 2.0: desafios regulatórios diante da velocidade do crime Gustavo Martins – Chefe do Departamento de Supervisão de Conduta (Decon) Banco Central O avanço do Pix também esteve presente na discussão. Embora seja reconhecido como uma inovação transformadora no sistema financeiro brasileiro, sua alta velocidade também ampliou desafios relacionados à fraude. Nesse contexto, um dos principais avanços regulatórios citados foi o MED 2.0 (Mecanismo Especial de Devolução), desenvolvido para ampliar a capacidade de rastreamento e recuperação de recursos desviados por fraude. Segundo Gustavo Martins, o fraudador moderno já opera com estruturas desenhadas especificamente para dificultar a rastreabilidade e o bloqueio. “O fraudador hoje migrou dessa questão de conta de laranja para o que eles chamam de conta mula 2.0. O dinheiro passa muito rápido em diversas contas. A ideia é fazer a dispersão dos recursos para dificultar justamente essa rastreabilidade.”, explicou. Além disso, iniciativas regulatórias como a revisão das Resoluções 3.978 e 4.001 também ganham importância para fortalecer a aderência dos normativos às novas tipologias criminosas. COAF e cooperação institucional: inteligência financeira em rede Ricardo Saadi – Presidente do Coaf Sob a perspectiva da inteligência financeira, Ricardo Saadi destacou a importância da qualidade das comunicações enviadas ao COAF pelos setores obrigados. Segundo ele, a efetividade da inteligência produzida pelo órgão depende diretamente da consistência, profundidade e contextualização das informações recebidas. O volume de comunicações é expressivo, mas quantidade, por si só, não garante qualidade analítica. Entre os desafios apontados estão: comunicações com pouca contextualização; limitações tecnológicas e necessidade de automação analítica. Saadi destacou que a modernização tecnológica do COAF é uma prioridade estratégica, incluindo o uso de inteligência artificial para identificação de tipologias e melhoria na capacidade analítica. “O COAF depende única e exclusivamente de vocês. A única matéria-prima que o COAF tem são as comunicações feitas pelos setores obrigados. Se as comunicações forem eficientes, o trabalho do COAF tende a ser eficiente.” A mensagem reforçou que a prevenção efetiva depende da atuação conjunta entre instituições obrigadas e órgãos de inteligência. Além da modernização tecnológica, o COAF também busca ampliar sua proximidade com o mercado por meio de maior integração institucional, fortalecendo o fluxo de informação entre setor público e privado. O futuro da prevenção exige integração A principal mensagem do painel foi clara: não é mais possível combater fraude, lavagem de dinheiro e crimes cibernéticos de forma isolada. A sofisticação do crime organizado exige colaboração contínua entre instituições financeiras, reguladores, órgãos de inteligência e forças de segurança. Mais do que responder a incidentes, o desafio atual está em antecipar movimentos criminosos por meio de inteligência, dados e integração operacional. O Painel 1 do 8º Congresso Internacional do IPLD demonstrou que o futuro da prevenção em PLD-FTP passa, necessariamente, pela integração entre áreas, pelo uso estratégico de dados e pelo fortalecimento da cooperação entre todos os atores do ecossistema.