27/03/2025 Atualizado em : 28/03/2025

Liderança feminina no combate a crimes financeiros: desafios e conquistas em evolução

27/03/2025 Atualizado em : 28/03/2025

A Prevenção à Lavagem de Dinheiro (PLD) é um dos pilares da integridade do sistema financeiro e da estabilidade econômica global. Dentro desse cenário, o papel das mulheres tem crescido em importância, embora ainda seja marcado por desafios estruturais.

Apesar dos avanços recentes, a presença feminina em cargos de liderança nas instituições dedicadas à PLD continua limitada. Segundo dados do GAFI (Grupo de Ação Financeira), na última plenária realizada, apenas 12 dos 40 chefes de delegação eram mulheres, e só 2 dos 10 líderes de grupos de trabalho eram do sexo feminino.

No entanto, iniciativas como “Mulheres no GAFI e na Rede Global” (Women in FATF and the Global Network) estão promovendo mudanças positivas. As mulheres estão gradualmente conquistando espaços de liderança e influência, trazendo perspectivas valiosas e inovadoras para o combate aos crimes financeiros. Este progresso, embora lento, sinaliza um futuro promissor para a igualdade de gênero no setor de PLD.

 

Evolução da participação feminina na PLD

A presença feminina no setor de PLD tem mostrado sinais consistentes de crescimento, sustentada por trajetórias inspiradoras e iniciativas de fomento à diversidade. Historicamente, as mulheres enfrentam barreiras consideráveis ao ingressar nesse campo tradicionalmente dominado por homens. No entanto, sua resiliência e determinação têm sido fundamentais para abrir caminho e inspirar novas gerações.

Nesse contexto, exemplos de liderança feminina ganham ainda mais relevância. Pioneiras como Elisa de Anda Madrazo, atual presidente do GAFI, têm contribuído significativamente para o avanço da representatividade feminina. Suas experiências diversificadas e formação multidisciplinar têm trazido novas perspectivas e abordagens inovadoras para o combate aos crimes financeiros.

Além disso, o networking e a colaboração entre profissionais têm se mostrado cruciais para o fortalecimento das trajetórias femininas no setor. Diversas iniciativas vêm promovendo a igualdade de gênero e inspirando a próxima geração de líderes.   

Desafios enfrentados pelas mulheres na PLD

As barreiras culturais e estereótipos de gênero persistem, com expectativas sociais sobre papéis “femininos” e “masculinos” influenciando a forma como as mulheres são percebidas no ambiente profissional. Frequentemente, são vistas como menos aptas para posições de liderança, e seus comportamentos assertivos tendem a ser interpretados de forma negativa.

A conciliação entre carreira e vida pessoal também representa um desafio considerável. As responsabilidades familiares e domésticas continuam recaindo desproporcionalmente sobre as mulheres, e a falta de flexibilidade no ambiente de trabalho dificulta esse equilíbrio. Além disso, a pressão para “ter tudo” pode amplificar a síndrome do impostor, afetando a confiança profissional.

No âmbito econômico, a disparidade salarial e de oportunidades continua sendo uma realidade. No setor financeiro, as mulheres recebem, em média, 26,1% menos que os homens, com a lacuna salarial aumentando com a idade – chegando a 27% para mulheres entre 45-64 anos.

A subrepresentação em cargos de liderança também é evidente. Apenas 26,4% dos cargos de presidência em instituições de ensino superior são ocupados por mulheres. Em empresas financeiras, elas ocupam apenas 21% dos assentos em conselhos e 5% das posições de CEO.

Esses desafios, que se reforçam mutuamente, contribuem para a manutenção da desigualdade de gênero no setor de PLD. Superá-los exige ações estruturadas, políticas inclusivas e um compromisso real com a equidade.

Iniciativas do GAFI para promover a igualdade de gênero

O GAFI tem implementado medidas concretas para promover a igualdade de gênero sob a liderança de Elisa de Anda Madrazo. A iniciativa Women in FATF and the Global Network, lançada em fevereiro de 2023, visa aumentar a conscientização sobre a importância da diversidade de gênero e capacitar a próxima geração de líderes femininas.

Entre as ações adotadas, destaca-se o programa de mentoria, que já conta com 28 pares de mentoras e mentoradas de 16 países-membros, 5 órgãos regionais e 3 observadores. O GAFI também passou a monitorar a paridade de gênero internamente, apresentando regularmente ao plenário dados sobre a participação feminina em equipes de projetos, lideranças e avaliações.

O objetivo dessas iniciativas é criar um ambiente mais inclusivo e representativo, reconhecendo que a diversidade de perspectivas fortalece a eficácia das estratégias de combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo.

O impacto positivo da diversidade de gênero

A diversidade de gênero nas equipes de PLD traz benefícios significativos. A inclusão de perspectivas femininas enriquece a análise de riscos e compliance, oferecendo abordagens inovadoras e uma compreensão mais ampla dos desafios enfrentados pelo setor. Estudos mostram que equipes diversas são mais eficazes na detecção de atividades suspeitas e na criação de controles mais robustos.

A presença feminina também contribui para a melhoria na tomada de decisões, reduzindo vieses e promovendo uma cultura organizacional mais inclusiva e sensível a diferentes realidades. Além disso, equipes mistas demonstram maior capacidade de adaptação às mudanças regulatórias e às novas tendências criminais, o que é fundamental em um ambiente em constante transformação.

Ao combinar diferentes habilidades, experiências e pontos de vista, a diversidade fortalece as equipes de PLD, resultando em soluções mais abrangentes, eficazes e alinhadas com as melhores práticas internacionais.

Perspectivas futuras

O setor de PLD-FTP está em constante evolução, exigindo inovação, colaboração e liderança responsável. A construção de ambientes mais inclusivos e representativos é um passo essencial não apenas para promover a igualdade de gênero, mas também para a efetividade das políticas de integridade e ESG.

O engajamento coletivo – de homens e mulheres – é indispensável. Organizações que investem em programas de mentoria, políticas de flexibilização, equidade salarial e valorização da diversidade tendem a desenvolver sistemas de prevenção mais sólidos, confiáveis e alinhados às melhores práticas globais.

A transformação já está em curso, mas ainda requer coragem, ações concretas e, sobretudo, a valorização das vozes femininas que já atuam com protagonismo na linha de frente da integridade e do combate aos crimes financeiros.