As transformações do crime organizado e seus impactos sobre o sistema financeiro global estiveram no centro das discussões do quinto painel do 8º Congresso Internacional do IPLD, realizado em 26 de maio de 2026. Com o tema “Narcoterrorismo e Crime Organizado: A Infiltração das Facções Criminosas no Sistema Financeiro Global e seus Impactos na Economia Formal”, o debate reuniu Bernardo Mota (Coordenador-Geral de Articulação Institucional do Ministério da Justiça), Jorge Lasmar (Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da PUC Minas) e Patrícia Alemany (Delegada da Polícia Civil do Rio de Janeiro). Ao longo do painel, os Especialistas analisaram como o crime organizado evoluiu nas últimas décadas, ampliando sua presença em atividades econômicas lícitas, sofisticando seus mecanismos de financiamento e estabelecendo conexões cada vez mais complexas com mercados internacionais, novas tecnologias e estruturas financeiras. Crime organizado e terrorismo possuem diferenças jurídicas fundamentais Bernardo Mota – Especialista em Políticas Publicas e Gestão Governamental e Coordenador-Geral de Articulação Institucional do DRCI do Ministério da Justiça Ao conduzir o debate, Bernardo Mota ressaltou que o tema ganhou enorme relevância não apenas pela evolução do crime organizado, mas também pelas discussões legislativas e diplomáticas envolvendo a possível aproximação entre os conceitos de organizações criminosas e organizações terroristas. Segundo ele, é fundamental que esse debate seja conduzido de forma técnica, evitando interpretações simplificadas ou influenciadas por disputas políticas. “O Brasil já está sofrendo pressões no campo diplomático por essa questão, justamente por como ele está lidando com os dois temas. A gente precisa tratar com o devido cuidado para não contaminar o mercado em relação a definições ou interpretações equivocadas.”, destacou. Bernardo explicou que, antes de qualquer aproximação entre os dois fenômenos, é necessário analisar aspectos distintos, como os tipos penais aplicáveis, os regimes de sanções, os mecanismos de cooperação internacional e as competências jurisdicionais. O crime organizado mudou e a resposta também precisa mudar Jorge Lasmar – Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da PUC Minas Ao iniciar sua participação, Jorge Lasmar destacou que compreender o atual debate sobre narcoterrorismo exige, antes de tudo, entender como o crime organizado se transformou nos últimos anos. Segundo o Especialista, a criminalidade transnacional deixou de atuar apenas por meio de atividades ilícitas tradicionais e passou a operar como uma estrutura econômica altamente sofisticada. Para ilustrar essa mudança, apresentou um dado que evidencia a dimensão financeira do problema. “Vou começar com um número: 3 trilhões de dólares. Esse é o número ao qual a NASDAQ, numa das pesquisas mais compreensivas sobre o volume do mercado ilícito internacional, chegou sobre o que o mercado movimentou globalmente em um ano, no ano de 2024. Se o crime organizado global fosse um país, esse PIB seria a quarta maior economia do mundo, isso considerando a União Europeia como um país.”, ressaltou. Lasmar explicou que esse crescimento é acompanhado por mudanças profundas na forma como essas organizações atuam. Entre elas, destacou a capacidade de provocar grandes disrupções sociais, o uso intensivo de tecnologia, a atuação simultânea em diferentes modalidades criminosas, a formação de redes colaborativas entre grupos distintos, a disputa por territórios estratégicos e a diversificação dos modelos organizacionais. Segundo o painelista, essas transformações exigem uma revisão da forma como o sistema de prevenção à lavagem de dinheiro enxerga o crime organizado. Na avaliação do Especialista, limitar a atuação dos Programas de PLD-FTP apenas à identificação de operações suspeitas já não é suficiente diante da complexidade atual das organizações criminosas. A infiltração do crime organizado na economia formal Patrícia Alemany – Delegada da Polícia Civil do Rio de Janeiro Ao abordar a atuação prática das organizações criminosas, Patrícia Alemany apresentou a perspectiva de quem atua há quase três décadas no combate ao crime organizado. Segundo a Delegada da Polícia Civil do Rio de Janeiro, uma das principais mudanças observadas nos últimos anos foi a expansão das facções para setores inteiramente inseridos na economia formal. Na avaliação da Especialista, essas organizações deixaram de depender exclusivamente do tráfico de drogas e passaram a explorar atividades econômicas essenciais ao cotidiano da população, ampliando significativamente sua capacidade de geração de recursos. “O Rio de Janeiro hoje tem cerca de mil favelas e, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, um milhão e meio de pessoas vivem sob o domínio do crime organizado. Quando a gente fala nessa modificação, é a modificação desse crime que antes só vendia droga e arma e começou a atuar também dentro dos serviços essenciais de cada cidadão, como a venda de gás, o transporte público.”, explicou. A Delegada também chamou atenção para o uso crescente de armamentos de guerra em áreas urbanas e para a integração entre crimes patrimoniais aparentemente isolados e estruturas muito maiores de criminalidade organizada. O enfrentamento ao crime organizado exige uma visão cada vez mais estratégica As discussões do Painel 5 demonstraram que o crime organizado passou por uma transformação profunda, tornando-se uma estrutura altamente sofisticada, integrada à economia formal e capaz de explorar tecnologias, mercados e redes financeiras de maneira cada vez mais complexa. Ao longo do debate, ficou evidente que, embora terrorismo e organizações criminosas permaneçam juridicamente distintos, o compartilhamento de estruturas operacionais, serviços especializados e mecanismos financeiros impõe novos desafios aos Programas de PLD-FTP e às instituições responsáveis pela prevenção e repressão desses crimes. O Painel 5 do 8º Congresso Internacional do IPLD destacou que enfrentar essa nova realidade exige muito mais do que fortalecer mecanismos tradicionais de monitoramento. Inteligência financeira, cooperação internacional, integração entre setores público e privado, recuperação de ativos e evolução contínua dos processos de avaliação de risco serão fatores cada vez mais decisivos para reduzir a capacidade de atuação das organizações criminosas e proteger a integridade do sistema financeiro.