No dia 30 de junho de 2026, o IPLD promoveu o 3º e último Webinar da Série Técnica sobre PLD-FTP e as Entidades Designadas como Organizações Terroristas. Com o tema Engenharia de Controles: Ajustes Práticos nos Programas de PLD-FTP, o encontro focou na implementação de adaptações nas matrizes de risco, cenários de monitoramento de transações e estruturas de Governança. O debate contou com a participação de Antônio Juan, consultor com 34 anos de trajetória no Banco Central do Brasil, e Adilson Lobato, Diretor da AML Outsourcing, com a moderação de Andréia Vargas, Presidente do IPLD. Ao longo do webinar, os Especialistas destacaram que, embora o cenário geopolítico exija uma revisão das políticas institucionais e dos perfis de risco dos clientes, não há o surgimento de novas tipologias criminosas. O desafio atual reside no aprimoramento prático dos controles já existentes, na calibração do monitoramento transacional para evitar o de-risking e na aplicação de testes de efetividade para garantir a Conformidade e a segurança operacional. 1. O novo cenário de risco A inclusão de facções nacionais em listas estrangeiras como o Office of Foreign Assets Control (OFAC) gerou, inicialmente, reações alarmistas no mercado. Contudo, os Especialistas apontam que, metodologicamente, não houve o surgimento de novas tipologias criminosas. O crime organizado continua operando por meio de mecanismos conhecidos de ocultação de bens e trânsito de valores; o que se alterou de forma drástica foi a severidade do cenário de risco operacional, legal e de imagem. Ao analisar a dinâmica prática dos controles internos, Andréia Vargas destacou que o surgimento dessas designações internacionais impõe um risco aumentado, exigindo que as melhorias sejam transversais nos sistemas de PLD para vencer os novos desafios regulatórios e de Governança. A partir dessa perspectiva de adequação prática, Antônio Juan comparou a robustez necessária nos controles atuais à maturidade dos processos de quem já faz o dever de casa em Conformidade. “Em termos de procedimentos e controles, não muda nada para quem já tem procedimentos e controles robustos. Para quem não tem, já passou da hora, aliás, há muito tempo, já deveria ter adotado esses procedimentos.”, destacou. 2. Adaptações na política institucional e o risco de de-risking A política de PLD-FTP é o documento máximo de compromisso de uma instituição e precisa ser mantida atualizada e compatível com os perfis de risco do negócio. Diante do novo panorama, as organizações devem revisar suas diretrizes de aceitação de clientes, deixando claro quais perfis estão fora de seu apetite de risco. Além disso, é recomendável incorporar referências ao cumprimento de sanções e à análise da finalidade dos relacionamentos propostos. No entanto, os painelistas alertaram para um efeito colateral preocupante: o de-risking mitigatório excessivo. A mera associação de clientes a determinadas áreas geográficas sob influência criminal, por exemplo, não deve resultar na exclusão automática de setores inteiros da sociedade. O processo de avaliação deve ser minucioso e equilibrado, evitando também as chamadas “comunicações defensivas” ou pró-forma ao COAF, que inundam o órgão regulador com alertas de baixa qualidade e prejudicam a inteligência financeira do país. 3. Engenharia de monitoramento transacional e abordagem geográfica No campo prático do monitoramento de transações, o desafio consiste em calibrar os sistemas automatizados para capturar desvios comportamentais com maior precisão. Embora as regras para fracionamento de valores (smurfing) já existam na maioria das instituições, muitas vezes operações de pequeno valor são descartadas por critérios inadequados de materialidade. No contexto atual, a análise conjunta dessas pequenas transações ganha relevância. Os ajustes práticos recomendados incluem: Fluxos para regiões de alta influência criminal: ir além dos conceitos tradicionais de fronteira física e incorporar dados de áreas urbanas de alta periculosidade onde serviços básicos encontram restrições de acesso.[Quebra da Disposição de Texto] Velocidade de circulação de recursos: aprimorar as regras voltadas a identificar contas de passagem, caracterizadas por alta volatilidade de saldo em curtos intervalos de tempo.[Quebra da Disposição de Texto] Mudanças abruptas de comportamento: monitorar contas anteriormente dormentes que repentinamente passam a apresentar movimentações expressivas, indicativo comum de aluguel ou coação de contas de pessoas físicas.[Quebra da Disposição de Texto] Setores com alta liquidez: elevar a classificação de risco de atividades econômicas que geram caixa rápido na economia formal, uma vez que o crime organizado busca ativamente a simbiose criminal em negócios legítimos, incluindo setores como o agronegócio e o comércio de bens. A calibração dessas regras de monitoramento reflete a necessidade de transitar de uma vigilância puramente transacional para uma análise comportamental e contextual complexa. Ao sintonizar os sistemas para identificar essas tipologias de forma integrada, as instituições refinam sua capacidade técnica e evitam que a engrenagem da economia formal seja utilizada para dar aparência de legalidade a recursos do crime organizado. 4. Governança, Testes de Efetividade e o Checklist de Conformidade A Governança do Programa de Conformidade deve ir além do batimento automatizado de listas restritivas. É fundamental conduzir processos de backtesting, utilizando dados de operações policiais reais divulgadas na mídia ou por birôs especializados para testar se os sistemas internos teriam capacidade de identificar tempestivamente os envolvidos. Ao avaliar a real preparação das instituições para esses testes e a necessidade de que os processos internos gerem resultados práticos em vez de apenas cumprir formalidades, Adilson Lobato provocou uma reflexão fundamental sobre o papel dos controles no dia a dia. “A gente tem aquele que subestima o risco, aquele que superestima o risco, e o providente, o sensato, que olha o risco, analisa a sua situação e chama aquela demanda, chama aquele procedimento que é justo para ele, não ampliando muito o custo de observância, mas podendo dormir tranquilo.”, destacou. Como fechamento prático, foi proposto o “Checklist de Conformidade”. A segurança institucional e a mitigação real de riscos dependem de respostas afirmativas e convictas para as seguintes perguntas estruturais: A política institucional declara diretrizes adequadas a essa nova realidade? A Avaliação Interna de Risco (AIR) indica claramente o risco que essas organizações designadas representam para a operação? As regras de monitoramento conseguem identificar o fluxo financeiro atípico dessas organizações? Os processos de KYC, KYP e correlatos estão preparados para identificar, separar ou classificar devidamente o público de maior risco? Há subsídios e dados qualificados suficientes para rodar esses processos de identificação? A equipe interna está devidamente capacitada e sensível a este novo cenário de risco? A engenharia de controles em PLD-FTP não demanda a criação de ferramentas revolucionárias, mas sim o aperfeiçoamento rigoroso, a calibração de parâmetros e a sensibilidade analítica sobre as estruturas que as instituições já possuem em funcionamento. O caminho para uma Gestão de Riscos sustentável O grande divisor de águas entre o Compliance meramente burocrático e a proteção efetiva do negócio reside na capacidade de transitar de uma postura estática para uma visão dinâmica, transformando processos de identificação pontuais em um monitoramento comportamental contínuo. Para uma Gestão de Riscos eficiente, o 3º Webinar da Série destacou a importância da identificação precisa do beneficiário final corporativo, do uso estratégico da tecnologia e da blindagem contra riscos internos de infiltração.