O segundo painel do 8º Congresso Internacional do IPLD, Governança, Ética e Supervisão: O Novo Marco Regulatório para BaaS, Fintechs e Instituições de Pagamentos, realizado em 26 de maio de 2026, reuniu Especialistas para discutir os desafios regulatórios e operacionais diante da evolução do ecossistema financeiro digital. Com mediação de Pedrina Braga (Diretora Executiva da Pagos), o debate contou com a participação de Carla Valente (Gerente de Compliance Regulatório, PLD e Privacidade da Pluxee), Kelly Massaro (Presidente Executiva da ABRACAM) e Gerson Romantini (Chefe da Divisão de Supervisão de PLD-FT do Decon do Banco Central do Brasil), que abordaram temas como Governança em modelos de BaaS, accountability, supervisão regulatória, intermediadores de pagamento e o papel da tecnologia nos controles de PLD-FTP. Um ecossistema interconectado exige Governança integrada Pedrina Braga – Diretora Executiva de Produtos e Serviços da Pagos Na abertura do painel, Pedrina Braga destacou que Governança, Ética e Supervisão não podem mais ser tratadas de forma isolada, especialmente em um mercado cada vez mais interdependente e exposto a riscos complexos. Em sua visão, o atual cenário exige uma mudança de mentalidade por parte das instituições, que precisam abandonar estruturas excessivamente departamentalizadas e adotar uma abordagem integrada de Gestão de Riscos. Segundo a mediadora, fraudes, lavagem de dinheiro e segurança cibernética deixaram de ser temas independentes e hoje impactam diretamente toda a cadeia do sistema financeiro, tornando indispensável uma atuação coordenada entre áreas técnicas, operacionais e estratégicas. Ao refletir sobre o papel do Compliance nesse contexto, Pedrina ressaltou que sua função vai além da fiscalização, sendo um elemento essencial para a transformação e sustentabilidade das organizações. “Os riscos isolados não existem mais. O compliance bem feito não fiscaliza, ele transforma. Quando o risco chega tarde demais à alta administração, ele deixa de ser estratégico e vira uma crise. Inovação sem confiança gera crescimento, mas não gera sustentabilidade.”, explicou. A fala reforçou uma das mensagens centrais do painel: em um ecossistema altamente conectado, a construção de confiança por meio de Governança efetiva e responsabilidade compartilhada tornou-se indispensável para sustentar o crescimento saudável do setor. Governança como base para inovação sustentável Carla Valente – Gerente de Compliance, Regulatório, PLD e Privacidade da PLUXEE Sob a perspectiva das Fintechs e Instituições de Pagamento, Carla Valente enfatizou que o avanço da inovação financeira trouxe benefícios significativos para a concorrência e a inclusão financeira, mas também ampliou a exposição a novos riscos. O crescimento acelerado de novos players, aliado à digitalização, elevou os desafios relacionados à fraude, à lavagem de dinheiro e ao uso indevido da infraestrutura financeira por organizações criminosas. Para a Especialista, o principal desafio está em equilibrar inovação e Conformidade Regulatória sem comprometer a sustentabilidade dos negócios. Nesse contexto, a Governança passa a atuar desde a concepção dos produtos e serviços. “Então, a barreira que existia entre produto, tecnologia e compliance hoje não existe mais, não pode existir para que o desenvolvimento dos negócios se dê de forma íntegra e sustentável. Isso passa também por um amadurecimento institucional de accountability, de Gestão de Riscos e do amadurecimento da visão do que é atuar numa empresa regulada, inclusive da função social da empresa na prevenção à lavagem de dinheiro.”, ressaltou a Especialista. Além disso, Carla pontuou que empresas reguladas possuem também uma função social no combate à lavagem de dinheiro, uma vez que sua atuação impacta não apenas o mercado, mas a sociedade como um todo. Cooperação e padronização fortalecem os controles Cooperação e padronização fortalecem os controles Kelly Massaro – Presidente Executiva da ABRACAM Kelly Massaro trouxe a perspectiva do mercado de câmbio e da experiência da ABRACAM, destacando a evolução da maturidade regulatória no setor ao longo dos últimos anos. Segundo ela, o combate à lavagem de dinheiro exige controles robustos, padronização de práticas e capacitação contínua dos profissionais. A Executiva relembrou que, no passado, o mercado operava com poucos parâmetros estruturados de prevenção. Hoje, a realidade é diferente graças ao avanço de metodologias, treinamentos e mecanismos de Conformidade. Kelly salientou ainda que políticas, manuais e processos, por si só, não são suficientes para garantir uma estrutura efetiva de prevenção. “O Banco Central nos deu duas ferramentas imprescindíveis que ninguém dá valor para a evolução da gestão, que é Avaliação Interna de Risco (AIR) e a Avaliação de Efetividade (AE). Com esses dois pontos você consegue medir a pulsação da sua operação full time. De nada adianta os consultores, os assessores fazerem trabalhos incríveis, se quando leva para a instituição, a instituição não coloca em prática.”, observou a Especialista. Esses instrumentos permitem verificar, continuamente, se os controles existentes estão de fato funcionando na prática. Além disso, outro ponto importante foi a responsabilidade das instituições reguladas sobre terceiros envolvidos em suas operações. A terceirização de processos não elimina a responsabilidade pelo risco. Supervisão regulatória diante da complexidade do mercado Gerson Romantini – Chefe da Divisão de Supervisão de Prevenção à Lavagem de Dinheiro e ao Financiamento do Terrorismo (Dsup2) do Departamento de Supervisão de Conduta (Decon) do Banco Central do Brasil (BCB) Representando o Banco Central do Brasil, Gerson Romantini trouxe uma visão ampla sobre os desafios regulatórios envolvendo BaaS, Fintechs e Instituições de Pagamento. Ele destacou que o avanço da inclusão financeira e da concorrência no Brasil gerou ganhos relevantes para o sistema, especialmente com a evolução das instituições de pagamento e do Pix. No entanto, esse mesmo avanço também abriu espaço para novas vulnerabilidades exploradas por organizações criminosas. Segundo Romantini, o Banco Central observa com atenção o crescimento de intermediadores de pagamento que atuam fora do escopo regulatório formal, exigindo uma reflexão mais aprofundada sobre o enquadramento dessas estruturas. Ao abordar esse cenário, o Especialista explicou que parte desses agentes já possui enquadramento regulatório, enquanto outros ainda demandam maior avaliação por parte do regulador. “Essa questão dos intermediadores de pagamento é algo que está sendo debatido no momento. Nós temos uma base legal que deu atribuição para o Banco Central regular e supervisionar esse segmento de transações de pagamento. Existem intermediadores que já foram regulados pelo Banco Central e são absolutamente legítimos, mas há alguns que surgiram e sobre os quais precisamos realmente refletir.”, reforçou. A preocupação central está no uso dessas estruturas para facilitar operações associadas ao crime organizado, à ocultação de recursos e à lavagem de dinheiro. Accountability em modelos BaaS e estruturas terceirizadas Durante o debate, a discussão sobre accountability em modelos de BaaS e em estruturas terceirizadas ganhou destaque, especialmente diante da crescente complexidade do ecossistema financeiro digital. Os painelistas ressaltaram que, à medida que novos modelos de negócio ampliam a participação de parceiros, intermediários e prestadores de serviço nas operações financeiras, torna-se ainda mais importante compreender que a terceirização de atividades não implica transferência de responsabilidade regulatória. A instituição regulada continua sendo responsável pela Supervisão, pelo monitoramento dos riscos e pela efetividade dos controles implementados em toda a cadeia. Nesse contexto, um dos principais desafios apontados está no amadurecimento da alta administração em relação à Gestão de Riscos. Mais do que delegar processos operacionais, as organizações precisam garantir Governança adequada sobre terceiros, com mecanismos capazes de assegurar transparência, rastreabilidade e Conformidade contínua. Em suma, quando se trata de estruturas cada vez mais distribuídas, a responsabilidade permanece centralizada. Ou seja, terceirização operacional não significa terceirização de accountability. Crescimento sustentável exige Governança e Supervisão Ao longo do debate, ficou evidente que a expansão do ecossistema financeiro digital exige muito mais do que inovação tecnológica: requer estruturas sólidas de governança, responsabilidade compartilhada e controle contínuo. BaaS, Fintechs e Instituições de Pagamento continuarão impulsionando inovação, inclusão e competitividade no mercado. Porém, à medida que o setor evolui, também cresce a necessidade de controles proporcionais à sua complexidade. O Painel 2 do 8º Congresso Internacional do IPLD demonstrou que inovação e integridade não são forças opostas. Pelo contrário: a confiança construída por meio de Governança, Compliance e Supervisão é o que sustenta o crescimento saudável e duradouro do sistema financeiro.