27/02/2026 Atualizado em : 06/03/2026

Avaliação Interna de Risco e Avaliação de Efetividade: Você já está preparado para ser auditado pelo Bacen?

27/02/2026 Atualizado em : 06/03/2026

A Maturidade dos Programas de Prevenção à Lavagem de Dinheiro e ao Financiamento do Terrorismo (PLD-FT) tem sido cada vez mais analisada sob a ótica da Efetividade e não apenas da Conformidade formal e documental.  

Nesse contexto, a Avaliação Interna de Risco (AIR) e a Avaliação de Efetividade consolidam-se como pilares estruturantes tanto para o mercado de Meios de Pagamento quanto para a Supervisão Regulatória. 

Esses temas foram debatidos em um evento exclusivo promovido em 24/02/2026 pelo IPLD e a Pagos, com a presença de especialistas do setor público e privado, incluindo representante do Banco Central do Brasil, com o objetivo de discutir as expectativas supervisórias, as fragilidades recorrentes identificadas em inspeções e os caminhos para aprimoramento das estruturas de Conformidade.  

Participaram do encontro Andreia Vargas, Presidente do IPLD; Gerson Romantini, Chefe da Divisão de Supervisão de PLD-FTP no Banco Central do Brasil; e Vanessa Fialdini, Sócia Advogada da Fialdini Advogados, que apresentaram a visão da Supervisão sobre a aplicação prática dessas avaliações e sua relevância para a análise do Perfil de Risco das Instituições. 

O debate evidenciou que compreender a lógica dessas avaliações, além de constituir uma exigência regulatória, é um fator estratégico para Instituições que buscam demonstrar robustez, coerência e Governança em seus Programas de Conformidade. 


O papel da Supervisão e o objetivo das avaliações 

Na abertura do encontro, Gerson Romantini explicou que a área de Supervisão atua por meio de ciclos contínuos, compostos por inspeções e monitoramentos periódicos os quais permitem avaliar não apenas a existência de estruturas formais, mas o funcionamento efetivo dos mecanismos de controle. 

Conforme destacado pelo representante do Banco Central, a AIR e a Avaliação de Efetividade são utilizadas como instrumentos centrais para a compreensão do nível de risco das instituições e para a orientação das ações de fiscalização. 

Durante o debate, Vanessa Fieldini ressaltou que o fortalecimento regulatório tem contribuído para a qualificação do mercado, destacando que a atuação mais exigente do Banco Central elevou o nível de estrutura, capital e Governança exigido das instituições. 

De acordo com a especialista, esse cenário tem favorecido as empresas comprometidas com práticas sérias e maior qualidade da informação, ao mesmo tempo em que reduz a presença de agentes que anteriormente ingressavam no setor sem a mesma preparação ou capacidade operacional. 

Nesse sentido, ficou evidente que tais avaliações não são procedimentos isolados. Elas integram um sistema mais amplo de análise que orienta a atuação do Regulador e influencia diretamente a forma como cada Instituição é acompanhada. 


AIR como base da Abordagem Baseada em Risco (ABR) 

Ao tratar da AIR, Gerson Romantini destacou que sua função central é definir o perfil de risco da Instituição e fornecer insumos para o planejamento estratégico de ações de prevenção. 

Ele ressaltou que a AIR deve identificar riscos inerentes e avaliar a qualidade dos controles adotados para mitigá-los. Essa combinação é fundamental para que o diagnóstico seja fiel à realidade operacional, permitindo ao Regulador compreender onde estão as vulnerabilidades e quais áreas exigem maior atenção. 

As discussões reforçaram que o Banco Central tem enfatizado que a AIR não deve ser tratada como um documento meramente formal, mas como instrumento estruturante da Abordagem Baseada em Risco (ABR). Quando não há identificação adequada das tipologias aplicáveis ao segmento de atuação, a Avaliação perde sua capacidade de refletir riscos reais. 

Em outras palavras, uma AIR genérica ou elaborada apenas para atender às exigências normativas não cumpre sua finalidade e pode comprometer todo o sistema de Gestão de Riscos. 


Fragilidades recorrentes observadas pelo Regulador 

Um dos momentos mais relevantes do debate concentrou-se nas falhas frequentemente encontradas em processos de supervisão. Entre elas, foram mencionados documentos replicados sem aderência à operação real, metodologias idênticas aplicadas a diferentes dimensões de risco e ausência de conexão entre riscos identificados e controles implementados. 

Essas inconsistências indicam que, em muitos casos, há desalinhamento entre teoria e prática. A existência de políticas e relatórios estruturados não garante, por si só, a Efetividade do Programa. Para o Regulador, o que importa é a coerência entre diagnóstico, metodologia e execução. 

Esse ponto evidencia uma mudança de paradigma: a Supervisão não se limita mais a verificar se os documentos existem, mas se eles são consistentes, aplicáveis e capazes de orientar decisões. 


Avaliação de Efetividade: a validação dos controles 

Se a AIR estabelece o mapa de riscos, a Avaliação de Efetividade verifica se os controles realmente funcionam. Gerson Romantini ressaltou que essa etapa complementa a AIR e permite confirmar, na prática, se as medidas adotadas são capazes de mitigar os Riscos identificados. 

Foi destacado que essa Avaliação não deve ser confundida com processos de Quality Assurance. Trata-se de um mecanismo estruturado de testes, cujo objetivo é gerar evidências concretas sobre a eficácia dos controles e, quando necessário, originar planos de ação acompanhados sistematicamente. 

Também foi ressaltado que a ausência de testes adequados ou a falta de monitoramento dos planos decorrentes das falhas identificadas são pontos que têm chamado a atenção do Regulador.  

Assim, a Avaliação de Efetividade funciona como um filtro crítico distinguindo Programas que apenas existem no papel daqueles que operam de fato. 


Insights e recomendações práticas 

Com base nas discussões, alguns aprendizados se destacam: 

  • A AIR deve refletir a realidade operacional: avaliações genéricas ou padronizadas tendem a ser ineficazes; 
  • Coerência é essencial: riscos identificados precisam estar diretamente ligados aos controles existentes; 
  • Testes são indispensáveis: sem validação prática, não há evidência de Efetividade; 
  • Planos de ação precisam de acompanhamento: identificar falhas sem monitorar correções compromete a credibilidade do Programa; 
  • Maturidade é diferencial competitivo: instituições que estruturam avaliações robustas demonstram maior Governança e preparo para auditorias. 

O evento deixou claro que AIR e Avaliação de Efetividade não são apenas etapas técnicas de um Programa de PLD-FTP, mas instrumentos estratégicos que influenciam diretamente a percepção regulatória, a Gestão de Riscos e a solidez institucional. 

A principal mensagem transmitida pelos participantes foi que o verdadeiro desafio não está em produzir relatórios, e sim em garantir que eles representem fielmente a realidade e orientem decisões práticas. Programas maduros são aqueles que demonstram coerência entre diagnóstico, controles e resultados. 

Em um cenário regulatório cada vez mais orientado à efetividade, preparar-se para uma auditoria do Banco Central significa, na prática, estruturar avaliações consistentes, testáveis e alinhadas à operação.  


Iniciativas para fortalecimento do setor 

Ao final do evento, a diretoria do IPLD, em parceria com a Pagos, apresentou iniciativas voltadas ao fortalecimento técnico das instituições supervisionadas. Entre elas, foram mencionadas soluções de apoio especializado e Selo de Acreditação, destinados a elevar o padrão de Governança e Conformidade no mercado. 

A apresentação dessas iniciativas reforçou a ideia de que a evolução do setor, além de depende não apenas de exigências regulatórias, mas também de investimentos contínuos em capacitação, metodologia e infraestrutura de controle.